quinta-feira, 14 de maio de 2015

A garota sem nome - Capítulo I






A Garota sem nome



Roubaram a minha alma





Senti muita dor na manhã e aplicaram um sedativo forte. Comecei a dizer coisas desconexas, dopada pelo remédio. O psiquiatra entrou no quarto no instante do meu assustado despertar. Eu havia acordado de um pesadelo estranho, mais assustador que filme de terror. As imagens do sonho pululando minha cabeça. O odor forte do lugar onde eu estava no sonho ultrapassou as barreiras do ilusório. Um cenário de Salvador Dali. Uma praia imensa com caravelas negras adornadas com velas largas da cor do trigo estendidas por todo o mar azul. O vento não era inodoro, no sonho ele cheirava a uísque misturado com jasmins, isto embrulhou meu estômago. Na praia uma procissão seguia em silêncio levando uma espécie de altar. No altar não havia imagem, havia uma ninfeta nua. Uma menina ruiva de cabelos longos lembrando a Vênus de Botticelli. O cortejo não atirava rosas à mulher no altar, atirava flechas. Pouco a pouco ela foi ficando rubra, adornada de flechas pelo corpo e o sangue escorrendo lento. Seus olhos não tinham luz e as flechadas não produziam reação alguma em seu rosto, nenhuma dor. Fui caminhando ao largo da praia, escondendo-me atrás de rochas, sem saber se a mim era permitido acompanhar aquele ritual pagão. No final da praia, lá onde um paredão se elevava altivo, eles a desceram daquele trono estranho. Deixaram-na ali atirada na areia. Voltaram cantando canções em um idioma por mim desconhecido. Esperei alguns segundos e corri até onde estava a menina. Era uma criança. Os seios começando a despontar tímidos. Eu os via agora que ela estava perto e que os longos cabelos não envolviam todo o seu corpo. Ela estava ensanguentada e ainda retirava algumas flechas de suas coxas brancas. No sonho eu não falava, buscava com meu olhar o olhar claro dela, para entender o que havia visto. Quando tentei me aproximar mais, ela fez sinal para que eu parasse. Quem são eles? Que idioma era aquele? O que você fez para merecer isto? Ela continuava impassível.
Não entendia as frases que ela começou a dizer. Lentamente. Enquanto ia se tornando invisível, encostada no paredão imenso de pedra, esvanecendo diante dos meus olhos. Um pássaro branco do pantanal brasileiro. Um tuiuiú pousou ao meu lado e me olhou com piedade. O pensamento dele eu traduzi automaticamente e entendi as frases dela que ecoava em meu cérebro, direto do pássaro como se fosse uma transmissão de códigos, convertendo para a minha Língua Mater.
Mereci isto. Cometi o maior crime capital.
O pássaro bateu asas enquanto eu tentava gritar algo como – Qual crime? Qual é o maior crime? O que a menina rubra disse? Roubaram meu coração... Última frase enviada pelo pássaro que já alçava nuvens... Eu pensei naquela alegoria estranha, em como é ter um coração roubado. Seremos punidos se não ficarmos alerta e donos do nosso próprio coração? Pouco a pouco comecei a ouvir as batidas do meu coração. Primeiro ao longe, como se estivesse acompanhando o som de um eletrocardiograma. Depois, foi ficando mais alto e mais próximo. O som compactuava com o som do meu próprio coração. Percebi que era meu coração batendo forte em uma praia imensa, flechas pela areia, sangue de menina em uma trilha profana, o mar em sua eterna dança. O barulho cada vez mais alto. Meu peito sentindo a pressão do sangue e as nuvens palpitando no mesmo ritmo. Toda a praia pulsando alto, cada vez mais alto. Acordei com taquicardia, sentindo o corpo todo em convulsão, suando frio. As enfermeiras fizeram alarde, saíram correndo em busca de ajuda. O médico entrou e aplicou uma injeção que acalmou o meu corpo, lentamente.

Dr. Adão esperou passar a minha crise.
—— Teu pesadelo adveio do remédio. Não tente interpretar os sonhos. Eles não têm muito a ver com o teu real estado e a tua vida real.
—— Não era o que Carl Jung dizia...
—— Como assim? Um dia você lembra uma professora de Português ou uma dessas intelectuais que se dizem escritoras; no outro parece alguém que conhece a ciência médica e até estudos dos meus antecessores. E, ainda assim, não dá uma única pista sobre aquilo que buscamos... A tua identidade.
Percebi que ele se ofendeu por ter questionado a sua linha de trabalho. Ele anda em círculos quando fica nervoso. É a segunda vez que o vejo andando em círculos desde que o conheci. O celular toca e ele o atende na minha frente.
—— Papai está no trabalho, querida... Não está autorizada a ir ao show desta noite, já disse que ainda é muito nova para sair... Não, Gabi. É não!
Ao que parece ele não está em um bom dia. Ele desliga o aparelho e olha-me desanimado.

—— Doze anos e quer dominar o mundo...
Sorrio o melhor dos meus sorrisos para ver se ele se acalma.
—— Além do sonho, algo?...

—— Não. Nada.

Bárbara Lia
18:00 no bar "O torto" depois do apocalipse

Imagem - Salvador Dali

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