quarta-feira, 13 de maio de 2015

A garota sem nome - Capítulo I




A garota sem nome



Ouro de Ofir





O passado é uma casa de pássaro ao anoitecer em uma floresta estranha e não marcaram a trilha meio ao verde. Não há mais para onde regressar. O passado é mais branco que um manto de neve - White Hole. Os cientistas estudam o buraco negro e eu me sinto como quem carrega um buraco branco no cérebro.
Hoje li em um salmo a expressão Ouro de Ofir. Preciso encontrar a minha mina secreta, a razão de viver, meu ouro de Ofir. Minha vida que começa aqui, depois do nada, do vácuo, do branco e da tábula rasa.
O psicólogo foi chamado até a UTI para falar comigo. Chamam-me de cidadã X. Comentei com o psicólogo que se eu vivesse nos Estados Unidos me chamariam de Jane Doe. Ele perguntou:
—— Você vive nos Estados Unidos?
Eu disse:
—— Não. Certamente se lá vivesse eu acordaria do coma falando inglês fluentemente.
Ele sorriu. A seguir comentou sobre o meu Português fluente. Alega que devo trabalhar em algo que envolva a mente e não o corpo. Sem pedir licença, tomou minha mão e alisou minha palma. No início fiquei constrangida, depois pensei: É apenas um médico realizando seu trabalho.
 ——Sem calos nas mãos e falando fluentemente a Língua Portuguesa, sabe denominações de filmes policiais americanos, táticas da polícia.
Cai de um viaduto e por sorte o carro que seguia pela rua naquele instante parou. O meu corpo deu um giro, como um atleta em seu salto olímpico e meu pé tocou o chão estourando ossos da minha perna, evitando a morte certa caso eu caísse com a cabeça no asfalto. Não morri, mas o impacto foi forte e fiquei triturada e estendida no chão. Entrei em coma, fui operada, engessada, entubada. Acordei cinco dias depois, com manchas roxas pelo corpo inteiro e sem saber ao menos meu nome. Uma testemunha que estava à janela de seu apartamento contou que fui empurrada por um vulto negro. Roupa de malha negra, capuz negro. Não pode ver o rosto. Uma incógnita a minha queda. Agora, converso com Dr. Adão por uma hora a cada manhã. Ele é psicólogo da polícia. Os policiais estão decididos a desvendar quem é a moça sem memória.
Disse a ele que li o salmo na noite passado ––– Ouro de Ofir.
Ele sorve o café e estende o olhar para a chuva batendo na vidraça. Sinto uma ternura de gênesis por ele. Eu que sou gênesis da cabeça aos pés, um mundo novo, desconhecido, um lugar que eu nem sei. Procuro em seus dedos uma aliança e não há nada. Como posso saber tanto sobre vida e sociedade, sobre técnicas policiais e alianças e não lembrar quem sou, onde vivo e a quem amo. Amo alguém? Alguém me ama? Certamente a pessoa que me atirou no asfalto não me ama. Ou ama demais? Ele suspira como quem não sabe mais que caminho seguir para abrir alguma porta na memória desta mulher. Olha o bloco de anotações. Olha para mim.
—— Segundo avaliação dos médicos você não tem mais que vinte anos e é de origem europeia. Pele clara, olhos claros. Aparenta ter tido excelente educação. Pele cuidada, dentes perfeitos, nem ao menos uma obturação. Muito bem. Não usa piercing nem tatuagem. Isto facilitaria, acredite. Um brinco de brilhante que não facilita a identificação. É isto. Roupas da moda, qualquer menina da tua idade possui. Para desespero dos investigadores não trazia um celular. Estranho uma garota não ter um celular.
Dr. Adão bate o bloco de anotações na palma da mão, adquire um ritmo qual o dos pingos de chuva. Um som seco que ecoa no mesmo ritmo da chuva. Vez ou outra levanta os olhos para mim como quem busca uma resposta. Suspira e considera encerrada a conversa.
-—— Amanhã vou passar aqui novamente. Tem um bloco ali na tua mesa de cabeceira, uma caneta. Caso recorde algo anote na hora. Não sabemos como está esta tua cabecinha. Para evitar lapsos de memória, regressão depois de algum flash de recordação, por favor, anote para mim. Volto amanhã, espero que amanhã esteja melhor.

Eu me sinto péssima com a perna direita ligeiramente elevada, suspensa no ar. Meus braços envoltos em faixas, os sinais roxos por todo o corpo, explodindo sangue pisado quase que acima da minha pele clara. Sorrio com o melhor de mim para o doutor. Ele sai com cuidado, fechando suavemente a porta, cerro os olhos e tento dormir.

Bárbara Lia
18:00 no bar "O torto" depois do apocalipse

Imagem: Beatriz Martin Vidal

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